Friday, February 23, 2007
Monday, February 19, 2007
Rough tunes
O som da voz dos brasileiros nos anos 70 e arredores tinha uma aspereza maravilhosa. É uma das coisas que mais me atraem para a música brasileira dessa época, com a dicção rigorosa, bem silabada. Em 1971, Marília Medalha, no tema "Mais um adeus", soava assim:
Friday, February 16, 2007
Tuesday, February 13, 2007
Friday, February 09, 2007
Os Meninos da Lágrima
Um projecto fotográfico em que os retratados são amigos e por nós e para nós se vestem e à nossa frente posam com roupas andrajosas e muitos lenços velhos e descoloridos à volta do pescoço. E, com carita triste, choram lágrimas simples, lágrimas isoladas, lágrimas que rolam-pela-face. Lágrimas de digno sofrimento. Um projecto comovente e achincalhador, sobre o qual as pessoas sérias abanariam a cabeça, desoladas, dizendo "Não devem ter mais nada para fazer", "Que falta de profissionalismo!", "Já não se fazem coisas com mensagem...!", "Só estão bem a fazer pouco." e/ou "Mas que conteúdo é que isto tem?".
Sangue - bu!
Não sei o que me impressiona mais: se a IVG se o que em mim se impressiona com a IVG sem que eu me dê conta. Esta noite sonhei que trabalhava num estabelecimento de saúde imundo. Lembro-me especialmente das correntes de ar, do frio, do chão de ladrilhos de 40 por 40 cms e bocaditos de pedras e de tijolos em tons de cinza, um modelo que se usava muito nas cozinhas e casas-de-banho construídas nos anos 60/70. Havia compartimentos destinados a intervenções e por eles entrava-se por portas duplas, portas de madeira toscas e mal presas às dobradiças, portas que não vedavam bem e que continuamente eram mexidas pelas correntes de ar. Em algum momento tinha sido esquecida a placenta de uma mulher e estava ali atirada a um canto. Tentei pô-la no lixo. Quanto mais eu tentava tirá-la do chão mais se esticava e maior parecia tornar-se, tinha a transparência e o esbranquiçado das alforrecas e uma das pontas estava cheia de sangue. Lá consegui levar tudo aquilo para o lixo, com grande esforço sobre o nojo. Quando regressei ao mesmo lugar, uma espécie de átrio ou corredor largo entre os tais compartimentos, havia pingas de sangue em todo o lado. Eu tinha ficado com a ideia que sim, que deviam lá estar e esperava encontrá-las, mas entretanto tinham adquirido a forma dos cristais de neve. Cristais de neve com a cor do sangue meio seco. Desses cristais desprendia-se um cheiro intenso a ferrugem.
Felizmente acordei aqui :) Havia outras coisas no sonho, outros andares, outras pessoas, outras coisas esquisitas, mas esqueci-me.
Tenho alguns sonhos péssimos, eu. Frequentemente nojentos. Peço desculpas à navegação, mas alguns têm de ser escritos. Remeto para um douto ensinamento do Miguel Esteves Cardoso, já não sei em que livro de crónicas, segundo o qual os sonhos são lixo e devíamos ter vergonha de falar neles e sobretudo de os contar aos outros. Consciente desta grande verdade – eis uma grande verdade – culpada me confesso, mas às vezes tenho mesmo de escrever os disparates que sonho, sobretudo de forma a que outros os leiam e, sendo amigos, possam relacionar-se comigo de forma mais esclarecida >:>
Felizmente acordei aqui :) Havia outras coisas no sonho, outros andares, outras pessoas, outras coisas esquisitas, mas esqueci-me.
Tenho alguns sonhos péssimos, eu. Frequentemente nojentos. Peço desculpas à navegação, mas alguns têm de ser escritos. Remeto para um douto ensinamento do Miguel Esteves Cardoso, já não sei em que livro de crónicas, segundo o qual os sonhos são lixo e devíamos ter vergonha de falar neles e sobretudo de os contar aos outros. Consciente desta grande verdade – eis uma grande verdade – culpada me confesso, mas às vezes tenho mesmo de escrever os disparates que sonho, sobretudo de forma a que outros os leiam e, sendo amigos, possam relacionar-se comigo de forma mais esclarecida >:>
Wednesday, February 07, 2007
O que era preciso sei eu!
Esta noite a Escola n.º 1 de Lisboa foi assaltada. De manhã alguns pais tardavam em abandonar as imediações, no impulso de comentar o sucedido uns com os outros. «Até a escola das crianças... isto só visto.». No momento em que pareciam ter esgotado a primeira indignação e começava a desenhar-se na praça movimento de afastamento em várias direcções, o desabafo de uma senhora reuniu-os outra vez:
- Isto o que era preciso era outro Salazar!
Outra senhora pára, retrocede interessada e lança a pergunta, em tom cúmplice:
- Quantos é que eram precisos, hã?! Quantos, quantos? Eram precisos muitos Salazares para pôr isto tudo no lugar.
- Eh lá! – protesta um homem. – isso é que não!
- Ah, não era não. – diz a que pediu outro.
- Pois não, não era. Está bem que era um bocadinho duro. Era um bocadinho duro... mas havia respeito e havia tudo e agora não há nada! – diz a que queria um exército deles.
Antes «havia tudo e agora não há nada»? Se o "tudo" não é o respeito, que estava antes na afirmação, que "tudo" era este que havia? Ordem?
Há uns meses também ouvi umas senhoras falarem do tempo em que iam à escola, descalças, mesmo no Inverno. Comentavam especificamente o facto de irem descalças, porque o calçado era um luxo, e falavam das feridas provocadas pelo frio. Depois uma delas lembrou que nem sempre havia o que comer, outro problema. Houve uma breve pausa, que eu julguei pesarosa. No momento seguinte, porém, espantosamente, as senhoras olharam uma para a outra, suspiraram prazenteiras – praticamente em êxtase! – e uma delas disse:
- Ah, belos tempos!
E a outra logo que sim que sim, com a cabeça, lagrimitas várias ao canto do olho:
- Bela vida!
Fome? Feridas de frio nos pés? Bela vida? Isto só pode ser aquele mecanismo absurdo, automático e tolo, que nos faz gostar do que é seguro contra os riscos da liberdade, não é? A mesma coisa que leva os ex-presidiários ao suicídio ou à prática de novo crime pelo qual sejam novamente presos. Neste caso, isso aliado ao saudosismo, que não é por si uma coisa lá muito inteligente (como eu o entendo, pelo menos: não dar pelas coisas excepto quando já passaram, momento em que passam a ter sido fantásticas mesmo quando não foram; chorar por elas enquanto o presente passa outra vez sem ser notado).
Seja como for, a multiplicação dos ditadores nos sonhos do povo é fascinante. Não um, mas vários Salazares? Do ponto de vista negocial é inteligente: pedir muito para conseguir um mínimo bastante. Vários Salazares... como é que os taxistas não se lembraram disto? Como é que se deixaram ultrapassar assim pela mãe de dois meninos, provavelmente desencartada?
- Isto o que era preciso era outro Salazar!
Outra senhora pára, retrocede interessada e lança a pergunta, em tom cúmplice:
- Quantos é que eram precisos, hã?! Quantos, quantos? Eram precisos muitos Salazares para pôr isto tudo no lugar.
- Eh lá! – protesta um homem. – isso é que não!
- Ah, não era não. – diz a que pediu outro.
- Pois não, não era. Está bem que era um bocadinho duro. Era um bocadinho duro... mas havia respeito e havia tudo e agora não há nada! – diz a que queria um exército deles.
Antes «havia tudo e agora não há nada»? Se o "tudo" não é o respeito, que estava antes na afirmação, que "tudo" era este que havia? Ordem?
Há uns meses também ouvi umas senhoras falarem do tempo em que iam à escola, descalças, mesmo no Inverno. Comentavam especificamente o facto de irem descalças, porque o calçado era um luxo, e falavam das feridas provocadas pelo frio. Depois uma delas lembrou que nem sempre havia o que comer, outro problema. Houve uma breve pausa, que eu julguei pesarosa. No momento seguinte, porém, espantosamente, as senhoras olharam uma para a outra, suspiraram prazenteiras – praticamente em êxtase! – e uma delas disse:
- Ah, belos tempos!
E a outra logo que sim que sim, com a cabeça, lagrimitas várias ao canto do olho:
- Bela vida!
Fome? Feridas de frio nos pés? Bela vida? Isto só pode ser aquele mecanismo absurdo, automático e tolo, que nos faz gostar do que é seguro contra os riscos da liberdade, não é? A mesma coisa que leva os ex-presidiários ao suicídio ou à prática de novo crime pelo qual sejam novamente presos. Neste caso, isso aliado ao saudosismo, que não é por si uma coisa lá muito inteligente (como eu o entendo, pelo menos: não dar pelas coisas excepto quando já passaram, momento em que passam a ter sido fantásticas mesmo quando não foram; chorar por elas enquanto o presente passa outra vez sem ser notado).
Seja como for, a multiplicação dos ditadores nos sonhos do povo é fascinante. Não um, mas vários Salazares? Do ponto de vista negocial é inteligente: pedir muito para conseguir um mínimo bastante. Vários Salazares... como é que os taxistas não se lembraram disto? Como é que se deixaram ultrapassar assim pela mãe de dois meninos, provavelmente desencartada?
Tuesday, February 06, 2007
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