Friday, December 29, 2006

Matej de Babel

O meu plano de fim de ano estava ancorado num dilema. Sair de Lisboa amanhã de manhã, regressar Domingo por volta das 4 ou 5 da tarde: a) e ir a correr ao centro Azeredo Perdigão ver a construção de livros de Matej Kren, no último dia dos meses todos ou b) ir imediatamente para casa? Se a), depois das 7 iria para casa cozinhar e arranjar-me à pressa, para estar pronta para sair às 9 e meia. Se b), iria para casa cozinhar menos à pressa e teria tempo para me vestir e estar pronta para sair às 9 e meia. Esqueci-me que Domingo era dia 31 (embora tivesse presente que era a véspera de dia 1) e que não havia exposição para ninguém. Fim do dilema.
A fotografia não é da instalação da Gulbenkian, mas da "Idiom", que esteve em Praga entre 1991 e 1998: um cilindro de livros, com 5 metros e 20 centímetros de altura, fechada em cima e em baixo por dois espelhos. Eu encantei-me na legenda "Idiom, interior space", pensei no aconchego apertado das línguas maternas, nos segredos, no rigor desses segredos, em tudo o que sempre ignoraremos, mais ainda sem nascer no país ou na região do idioma. Se a língua é estrangeira, ou nossa - com negligência ou grande zelo - o cilindro é um poço, mergulhar pede escafandro.

A casa prolonga o lugar infinito

"NOS OBJECTOS QUE POVOAVAM o lugar havia uma dimensão ínfima. Algumas peças de mobiliário, uma cama estreita, prateleiras com livros muito manuseados. Uma mesa de trabalho, encostada a uma parede, cheia de materiais de pintura, dispersos e desarrumados, era o coração oficial da casa. Sobre ela, na parede em frente, estavam fixados quadros, pintura de vários autores, fotografias de pessoas próximas ou reproduções de homens distantes."



"Como quem atravessa uma cidade imensa depois de percorrer montanhas e florestas, e entra numa casa, no coração da grande cidade. A casa prolonga o lugar infinito."
[...]
"Noutros projectos de fotografia [...] procurava seguir uma metodologia baseada em alguns critérios objectivos, decorrentes de uma análise do espaço. Começava pelos elementos estruturais, relacionados com a morfologia do lugar e as eventuais relações topológicas estabelecidas entre si, para depois ir trabalhando sucessivamente em direcção ao pormenor, ao mesmo tempo que eu próprio me embrenhava nessa teia de complexidades. No entanto, agora, deparava-me com outra dimensão. Decorridas 24 horas sobre a minha primeira visita, tudo, naquele espaço, parecia ter sido modificado. Alterações provocadas apenas pelo trabalho diário e continuado de Mário Cesariny, num ofício que era a sua própria vida. Num reduzidíssimo hiato temporal, no espaço inexistente, deparava-me com a irredutibilidade do tempo ou com aquilo que encontrara escrito escrito aos pés de uma figura, alta, plana, transformada, junto à porta de entrada da casa, de que agora me afastava, ao descer as escadas de regresso à cidade: 'impossível parar'."



Duarte Belo sobre a casa de Cesariny e as fotografias que tirou em 2003 para a Fundação EDP. Tema na página 16 do último Jornal de Letras.

Jornal de Letras Peixoto

Duas vezes por mês lembro-me que o JL existe. Então, e só então (quando me lembro), o compro e leio. Não sei quando sai e como este esquema negligente vai resultando não procuro saber. Creio que nunca comprei a mesma edição duas vezes, a leitura tê-lo-ia denunciado. Ocasionalmente, José Luís Peixoto faz-me transpirar déjà lus.

Thursday, December 28, 2006

O que as nuvens parecem

Diz que 64% do território de Massachusetts é arborizado. Por isso e por ser no Norte, seria um possível ponto de partida para uma viagem a fazer nos Estados Unidos. Ou ponto de chegada. Descer entre mar e florestas, seguir para Sul. O mapa mostra um litoral recortado, um Estado com ares de Fox Terrier de perfil, com Cape Cod no extremo de um objecto estranho empurrado pelo focinho. Partida ou chegada, digo eu? Há itinerários que não descem abaixo de Nova Iorque.


© Steven Pinker

Salazar - agora, na hora da sua morte

A BD de João Paulo Cotrim e Miguel Rocha foi a grande prenda no meu sapatinho. Tenho 18 recortes prontos e não sei quais postar.

Aqui, por exemplo, Salazar cai da cadeira



e uma resma de papéis voa, escura como uma nuvem de corvos. Notar os pés juntos para cima, no fim, que podem ser corvos que escapam do estardalhaço desordenado da nuvem. Ou perús que se afastam em direcção ao interior da história, que é a da vida do país de Salazar, flashada, contada na primeira pessoa.




Com banda sonora oficial



e manifestações espontâneas de apreço.



Todas imagens estão linkadas para outras iguais mas maiores e legíveis. A digitalização não está perfeita, mas nota-se que se trata de desenhos escuros, com sombras duras. Gosto dessa escuridão geral do livro. O rosto de Salazar mal se vê, não chega a formar-se, é uma ideia vaga mas total, um país ou uma cooperativa.

Do existencialismo doméstico

A casa dos meus pais é periodicamente invadida por colónias de formigas. "De passagem", diz o meu pai. "Mas o que me intriga mesmo é de onde vêm e para onde vão", apoquenta-se.

Menino da Lágrima ou Meninos da Lágrima?

Pelo sim, pelo não, registei os dois. Deve ser isto que impede o progresso blogger na minha conta.

Deixar à mostra

Foi uma bela escolha verbal.

It's a one time thing/ It just happens/ A lot *

Nunca sei que blogs deixar à mostra no perfil e por vezes nem sei mesmo se quero deixar à mostra o perfil. Desejo saber de onde venho e para onde vou e exibo-os a todos e até mostro o endereço de e-mail do msn. Sou individualista e anti-social e escondo-os a todos. Em grande fúria corto o acesso a qualquer perfil. Entre estes extremos experimento combinações: agora um mês com os dois primeiros blogs e o último, depois duas semanas com um blog parado, a seguir um mês com um blog de testes. Entre todos encontro cacos suficientes para me colar onde me vou partindo.