
"Como quem atravessa uma cidade imensa depois de percorrer montanhas e florestas, e entra numa casa, no coração da grande cidade. A casa prolonga o lugar infinito."
[...]
"Noutros projectos de fotografia [...] procurava seguir uma metodologia baseada em alguns critérios objectivos, decorrentes de uma análise do espaço. Começava pelos elementos estruturais, relacionados com a morfologia do lugar e as eventuais relações topológicas estabelecidas entre si, para depois ir trabalhando sucessivamente em direcção ao pormenor, ao mesmo tempo que eu próprio me embrenhava nessa teia de complexidades. No entanto, agora, deparava-me com outra dimensão. Decorridas 24 horas sobre a minha primeira visita, tudo, naquele espaço, parecia ter sido modificado. Alterações provocadas apenas pelo trabalho diário e continuado de Mário Cesariny, num ofício que era a sua própria vida. Num reduzidíssimo hiato temporal, no espaço inexistente, deparava-me com a irredutibilidade do tempo ou com aquilo que encontrara escrito escrito aos pés de uma figura, alta, plana, transformada, junto à porta de entrada da casa, de que agora me afastava, ao descer as escadas de regresso à cidade: 'impossível parar'."

Duarte Belo sobre a casa de Cesariny e as fotografias que tirou em 2003 para a Fundação EDP. Tema na página 16 do último Jornal de Letras.
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